O bairro Jurema viveu momentos de terror durante a enchente de 9 de novembro, mas para a administradora e moradora local Amanda Dias, o caos não foi obra da natureza, e sim do descaso e da falta de planejamento urbano que castiga as áreas mais pobres da cidade.
Amanda, que mora no Jurema há mais de 30 anos, relata uma cena que define o desespero: um inquilino, vendo a água invadir sua casa rapidamente, teve que escalar o telhado e passar seu bebê de apenas três meses por cima da estrutura para a casa vizinha.
“Ele não tinha possibilidade de fuga… foi por desespero, por não saber realmente o que fazer naquele momento,” relata Amanda, que é proprietária do imóvel. “Poderíamos ter perdido vidas,” alerta.
A moradora rejeita o discurso de que a enchente é um acidente, apresentando uma análise precisa da geografia urbana de Conquista: o Jurema é, de fato, uma bacia receptora para o escoamento da cidade.
“A cidade não é urbanizada verde… cada vez mais é colocado cimento e asfalto [nos bairros altos], mas não se pensa onde vai desaguar essas águas,” explica.
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A água que cai na Serra do Periperi, nos bairros Brasil e Felícia, desce com velocidade e violência, encontrando as casas do Jurema.
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“A gente sofre sempre com a enchente por conta que a água deságua aqui. E não tem na cidade [um sistema] para onde essas águas pluviais vão ser jogadas.”
Muitos moradores, inclusive Amanda, já elevaram suas casas por conta própria, num esforço individual para barrar a água. No entanto, o problema estrutural da cidade é maior. “Com essa última chuva a gente teve também alagamento. Não se vê a sustentabilidade… Nada é feito,” critica.
A crítica de Amanda vai além da engenharia e toca na ferida social. Para ela, a ausência de obras de drenagem e estruturais no Jurema é uma escolha política que ignora a periferia no orçamento público.
“O investimento não chega aqui. A gente vê diversos empréstimos sendo feitos… mas não vê citado a Baixada do Jurema,” denuncia a administradora, referindo-se aos pacotes de obras anunciados pela Prefeitura.
A moradora conclui que, quando a atenção chega ao bairro, ela é apenas estética ou paliativa:
“Passa-se um asfalto, arruma alguns paralelepípedos, organiza uma praça… mas o verdadeiro problema, que é a falta de drenagem, não é feito.”












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